Dark Galaxy: “Infelizmente eu não conhecia o álcool, já que ele hoje em dia me ajuda a passar por esse problema mais rápido. “
A primeira paixão realmente nunca se esquece, ainda mais quando é recheada de desastres, conflitos e tramas diabólicas. Simplesmente típico de minha vida, desde pequeno sempre me ferrando.
O marcante desse pequeno caso de paixão é a ausência do elixir da vida que hoje considero incrivelmente sagrado, mas naquela época, o poderoso aroma arrebatador do chocolate já povoava por completo meus mais profundos desejos.
Um dos grandes problemas de ser jovem, bobo e “romântico” é que você considera tudo muito simples, tudo muito fantástico, tudo muito colorido e feliz. Ainda bem que existem os fracassos, traumas e decepções para nos mostrar que o mundo é feito muito mais de cinza do que tentam inutilmente nos dizer as pequenas histórias contadas toda hora.
Completamente apaixonado pela guria, era capaz de elaborar os mais complexos poemas rimados que uma criança pudesse fazer, criar as mais apaixonantes cartas de amor completamente infantis que pequenos dedos desajeitados conseguissem imaginar e foi exatamente isso que eu tentei fazer.
Seguindo a linha do amor platônico de uma criança que nem sabe o que fazer, durante meses mandei-lhe cartas com juras e mais juras de amor, confidencias dos mais impressionantes. O tipo de atitude que apenas uma criança poderia fazer.
Com a minha atual memória, não consigo me lembrar se ela respondia as cartas ou não, mas isso realmente não importa, afinal, mesmo pequeno, eu realmente estava mais interessado em me expressar do que realmente saber o que ela queria.
Foram vários meses desse “lenga lenga” infantil, sendo que metade da cidade já sabia dessa situação ridícula que a criatura passava. O que não esperava era eu, com a ingenuidade e a cegueira, que ainda me perseguem, era ter conquistado o coração de uma terceira pessoa, sem ao menos nem ter tentado.
Esse triangulo amoroso infantil e bizarro era ainda mais complicado pelo fato das pessoas nessa história freqüentarem a minha casa e simplesmente todas saberem da existência desses sentimentos, menos eu, é claro.
Visto que eu sempre fui cego, surdo, mudo e burro para essas coisas, a terceira parte do triangulo resolveu que seria uma ótima idéia se enfiar na história e tentar correr atrás dos espólios da guerra.
Já que a única forma de contato real que eu me prezava a elaborar era pela forma escrita, ela achou que seria interessante elaborar também uma carta onde pudesse se expressar e tentar entrar em contato comigo. Com o detalhe que ela não usou seu nome, não colocou seus sentimentos e não queria tentar primeiramente se aproximar de mim, mas sim, me separar da pequena que me cegava, emudecia, ensurdecia e emburrecia.
Com a bela carta traiçoeira elaborada, ela soltou seu poderoso veneno em minha caixa de correios, com a esperança de conseguir no futuro me conquistar, uma vez tendo me separado da outra ponta do triangulo.
O que a pequena criatura rastejante não esperava era que uma criança, apaixonada, sem conhecimento completo do que realmente era a decepção amorosa iria reagir, e vai saber realmente se ela chegou a pensar nesse ponto.
Ao ler o pequeno texto acabando com toda e qualquer esperança que pudesse ter criado, resolvi passar pela primeira de muitas depressões amorosas. Infelizmente eu não conhecia o álcool, já que ele hoje em dia me ajuda a passar por esse problema mais rápido. Então fiz o que qualquer pessoa faz, perdi o apetite, com a diferença que pra mim isso é muito grave, já que amo comer.
Meus familiares acharam absurdo eu passar uma semana praticamente em greve de fome e resolveram descobrir o que estava acontecendo. Não demorou muito para eles desembaralharem os nós criados pelas crianças e souberam do triangulo e da destruição do mesmo.
Recuperado da crise, voltei a ser criança e ignorei por completo a existência das duas criaturas que uma vez passaram pela minha vida.
Certo tempo depois, eu reencontrei a minha pequena paixão na escola. Para a minha surpresa e espanto, ao invés do príncipe ter se tornado um sapo, a princesa é que se transformou em um dragão.
Publicado em Luzes da Cidade